Viagens  //  05.11.2020

Quais vinícolas visitar em Bordeaux?

Como prometi no post sobre o que fazer em Bordeaux, chegou o momento de contar sobre a estrela da viagem: as vinícolas. Completamente leigos e obviamente empolgados visitamos o total de 5 vinícolas no mesmo dia e já adianto que não recomendo hahaha o ideal seria no máximo 3 vinícolas por dia para apreciar com toda paz e tranquilidade. Ainda bem que levamos no bom humor e o longo dia regado a bons vinhos foi animado e imensamente divertido, mas confesso que um tantinho cansativo no final.

Agendamos previamente todas as degustações através do site ruedesvignerons.com que é uma ótima ferramenta não apenas por facilitar o agendamento, mas tbém para pesquisar sobre os tipos de vinhos, as opções de degustação e visitação, tudo bem explicado.

Antes de mais nada, acho importante explicar que a região vinícola de Bordeaux é dividida em 6 regiões: Médoc, Graves, Blayais-Bourgeais, Libournais, Entre-deux-Mers e Sauternais. Que por sua vez se subdividem em dezenas de apelações, as chamadas Appellation d’Origine Contrôlée – AC ou AOC. Cada uma imprimindo personalidades e características próprias na produção dos vinhos. Por isso, simplesmente dizer que um vinho é de Bordeaux é tão genérico quanto dizer que vai viajar pra Europa. É interessante entender os detalhes que fazem toda diferença do local que concentra o maior número de vinhos de altíssima qualidade do mundo, sabe?

Nessa viagem visitamos vinícolas da margem esquerda do rio Garonne nas regiões de Médoc e Graves. Pega uma taça e vem comigo!

Nossa primeira parada foi no Château Talbot às 9h da manhã de uma segunda-feira (total definição de férias!) em Médoc. A guia nos explicou que as uvas são cultivadas na apelação Saint-Julien sendo a principal Cabernet Sauvignon – tânica e forte – que pode ser combinada com Merlot – encorpada e suave – e Petit-Verdot – delicada e especial – para criar complexidade e sofisticação aos vinhos que ocupam a prestigiada posição 4ème Grand Cru Classé. Uma curiosidade é que a Petit Verdot é considerada enfant terrible por ser uma variedade de difícil cultivo, porém um grande diferencial em anos de vintage excepcional. A vinificação ocorre em tonéis de carvalho e inox, combinando técnicas tradicionais e modernas. Destaque para a adega MA-RA-VI-LHO-SA criada pelo escritório de arquitetura Vacheyrout Gérard com colunas que evocam parreiras gigantes e imponentes se prolongando em fundo infinito, surreal! Degustamos 2 vinhos: Château Talbot e Connétable Talbot, ambos de vintage 2012. Eu, particularmente, achei os vinhos intensos, tanto que ela nos recomendou abrir não antes de 2 anos e deixar respirar no decanter antes de servir a garrafa de Château Talbot que compramos.

MEU CHÂTEAU FAVORITO: Recomendo fortemente! Pra começar, você já dá de cara com um castelo impressionante UAU em Médoc. Camille, a guia, extremamente inteligente e simpática, nos levou através de uma total imersão interativa e interessante. Começamos nos vinhedos da apelação Haut-Médoc, onde descobri que as uvas utilizadas para vinhos são pequeninas e concentradas, parecendo um mirtilo, e em nada têm a ver com as uvas grandonas que vemos no mercado haha Daí fomos para o espaço onde ocorre a vinificação em tonéis de inox e cimento com direito a show de luzes e projeções para explicar o clássico blend de uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot e Cabernet Franc – aromática e floral – para composição dos vinhos de classificação Cru Bourgeois Supérieur. A degustação foi super minuciosa com orientações sobre o anel do vinho (a mesa tinha inclusive contraluz branca para ressaltar essa característica), o aroma, o sabor e sugestões de harmonização. Degustamos o vinho Lamothe Bergeron, porém de 3 vintages diferentes: 2011, 2013 e 2016. A experiência foi essencial para entender que vintages mais antigas não necessariamente significam vinhos mais intensos e vice-versa. Apesar do mesmo rótulo, o aroma mudou consideravelmente entre vintages, demostrando como a natureza tem um grande impacto a cada ano. Degustamos na ordem crescente de intensidade e o vinho de 2016 foi meu favorito, sendo o de buquê mais harmonioso e equilibrado, porém de sofisticado sabor. Gostamos tanto que levamos duas garrafas, uma delas abrimos e brindamos ali mesmo nos jardins do castelo enquanto fazíamos um delicioso picnic com gourmandises franceses. Santé!

Outro que impressiona desde a chegada, o Château Malescasse é recheado de esculturas, pinturas e fotografias de artistas renomados como Ingo Mauer, Schlosser e Brau Vega. Com destaque para a imponente estrutura 223,5० Arc x 10 de Bernar Venet no jardim. Bem artsy do jeito que ADORO! A guia, correta e assertiva, explicou que as uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot são cultivadas na apelação Haut-Médoc e podem ser vinificadas em tonéis de carvalho, inox e cimento. A sala da degustação com decoração ultra moderna e chic foi o ambiente ideal para apreciarmos 4 vinhos de classificação Cru Bourgeois Exceptionnel: Château Malescasse 2016 e 2014, Le Moulin Rose de Malescasse 2016 e 2015. Refinados e cheios de personalidade, verdadeiramente artísticos!

Foi onde tivemos a degustação mais intimista e apaixonante. Aliás, o próprio Château Lestage é romanticamente extravagante em todos os sentidos! Por fora, o edifício Napoleão III de 1870 foi projetado pelo histórico arquiteto Minvielle. Por dentro, o estilo clássico pomposo domina com arranjos, porcelanas, cortinas pesadas e tapetes, AMO! Os vinhedos da apelação Listrac-Médoc são destinados ao cultivo das uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot, enquanto os vinhedos da apelação Moulis-en-Médoc se destinam as uvas Sauvignon Blanc e Semillon. A guia nos apresentou 2 tintos de classificação Crus Bourgeois e 1 branco para degustarmos, respectivamente: Château Lestage 2014, Château Caroline 2013 e La Mouette 2019. Os vinhos acompanham o mood do lugar com buquês elegantes, sedosos e aromáticos. Detalhe que ambos os tintos possuem potencial de envelhecimento de até 20 anos. Vinhos com capacidade de envelhecer bem são os mais cobiçados e valorizados no mercado, pois o amadurecimento é um dos fatores que aumenta a complexidade e a elegância do sabor.

O magnata do vinho Bernard Magrez possui nada mais, nada menos do que 42 (!!!) vinícolas espalhadas pelo mundo. Inclusive, uma no Brasil que produz o rosé Brilho em Bento Gonçalves. Mas seu queridinho é o Château Pape Clèment de classificação Cru Classé da região de Graves, sendo a vinícola mais antiga de toda Bordeaux. Nos vinhedos na apelação Pessac-Léognan são cultivadas as uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot que dão origem ao homônimo e icônico vinho que em 2009 atingiu a surpreendente pontuação máxima 100/100 de Robert Parker. A degustação seguiu um script e o tal vinho é sim saboroso, mas não me impressionou haha A saída dá direto na gigantesca loja com uma inumerável variedade de vinhos. Os jardins do castelo têm um belíssimo paisagismo, momento Pinterest em cada canto.

Deu pra perceber que cada château tem suas próprias histórias e peculiaridades, ou seja, tem pra todos os gostos! Nossa seleção foi bastante variada e nos ofereceu diferentes panoramas sobre essa maravilhosa arte de produzir vinhos. Quero voltar logo para conhecer ainda mais as outras regiões, em especial Sauternais onde são produzidos deliciosos vinhos de sobremesa.

Você tbém pode encontrar mais informações sobre Bordeaux e os châteaus no meu instagram @n.a.n.d.a.n.u.n.e.s através da hashtag #nandaembordeaux.

Nanda Nunes
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